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Zé Rui Kleiner
Versos e causos

AUTO RETRATO

(Trova)
Zé Rui Kleiner
 
Sou feito de beira de rio,
D’uma mãe de apego brejeiro.
Da casa do avô levo o cheiro
Onde nasci horas a fio.

Me criei na simplicidade.
Na paz d’um tempo delicado,
Levo comigo meu passado
Qual esculpido minha cidade.

Minha crença é mãe natureza
Que dentro d’um aquariano
Se reluta, em dom sobre-humano,
Um jardim de rara beleza.

Cheiro de camélia e roseira
Quando aves raiam meu dia;
Tais, surgem do céu com magia
E regem meu peito de beira.

Com os frutos d’um arvoredo
Compus um arbítrio solitário.
Mas sempre com destinatário
O qual rompe meu desenredo.

A mudança me vem madura
Vem na minh’alma remexer
Mas, quando dou a perceber,
Me corto pela própria cura.

Quando cai a lua poente
É quando minha voz se declara.
Se me abala por trás da cara,
Meu humor se faz pela frente.

Se fui por inteiro assim feito,
Torto que no papel se corre,
A dor de saudade me morre
E uma flor renasce em meu peito.

 

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SONETO ROGADO

Zé Rui Kleiner

 

Permita-me realizar, se sou sonho

Cobrir o céu cinza com azul claro

Roubar a estrela-flor de brilho raro

Fazer verso simples quando me ponho.

 

Me faça andar pela rua risonho

E uma chama no olhar como anteparo

Enfrentando a fraqueza, como encaro,

Mato todo o sentimento medonho.

 

Complete-me com o espelho da alma

Fazendo deste sonho o passatempo

Livre de cenário ou dor que angustia.

 

Me afaste da mentira e, com calma,

Abra-me o véu delicado do tempo

E a garoa do meu sereno dia.

  

 

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REVOADA

(soneto)
Zé Rui Kleiner

 

Canta, bem te vi; canta que é sua hora

Pelo chamado sólido e fraterno

Voltou em meio ao rigoroso inverno

Pois conheceu meu aperto de outrora.

 

Voa, meu colibri, com toda sua flora

Adoça com seu néctar subalterno

A mágoa despertada qu’inda hiberno

Expelindo da pele a minha pandora.

 

Sabiás e rouxinóis na janela

Libertos – sabidos dessa maldade –

Gozam de uma alegria travesti.

 

Assim, se tirou toda a asa da cela

Se estufou um grito de liberdade

E cantou meu pequeno bem te vi.

 

 

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APOGIATURA

(Soneto)

Zé Rui Kleiner

 

 

Passou-se um ano pro dia esperar

Não de graça, mas com tempo e com zelo

Afastei toda a prata do cabelo

Com rodas alegres, prosas de bar.

 

Se foi sofrido, custo a confessar

Pois todo mal vivido é um apelo

De uma procura por cartas sem selo

E por abrigo na luz de um luar.

 

Pro que me partiu, reservo o desprezo

Com a pena de um pássaro sem seu ninho

Te desencravo, ainda mais ileso.

 

Soube, com aquele teu redemoinho,

Que não passas de poema sem peso

E, sem mentir, canto pelo caminho.

 

 

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SONETO DO ANIVERSÁRIO DE UMA CIDADE

Zé Rui Kleiner

(aos 241 anos de Piracicaba)

 

Olhares cantantes, beira do rio

Nossas vidas repassadas nos versos

D’uma seresta d’um tempo adverso;

Faz-se verão em pleno tempo frio.

 

Faltou-me lembrar do que não se viu

Saudades... já não mais deste universo

Mesmo as que descansam num rio submerso

Que jamais abandona o próprio cio

 

Se meu tempo nunca mais for chegar

Me recuso, pra sempre, me casar

Com a noiva que a colina o véu vestiu

 

Ela se foi, mas sempre há de voltar

Com pedras, Rua do Porto, véu, luar,

Bonecos do Elias e saudades mil.

 

 

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SONETO DA REZA BRABA PRO NHÔ QUIM

(Ao XV de Piracicaba)

Zé Rui Kleiner

 

Tenho hoje que fazê minha fé

Todo vurto de causa conhecida

São Juão, São Longuinho, Nhá Aparecida

Sêmo Cosme, Damião, São Tomé

 

Vou rezá bem acima das medida

Cuzido de Iemanjá e São José

Boi-tatá, cara preta, Pai-Pajé

Procissão até pra Exu n'avenida

 

- Seu juíz, Nhô Quim já tem nome de santo

Pra quê agorá, se a bola num entrá?

Nóis merecêmo, cê viu, chegô lá.

 

Já pintei meu altá de preto e branco

Prometi: nem palavrão vô falá

Pro meu XV campeão comemorá!

 

 

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QUANDO SE SENTE

(soneto)

Zé Rui Kleiner

 

Diz-se que, quando se sente, se sabe

Quando se tem, a vida vai levando

Muda o sentido, fere vez em quando:

Instinto de rosa quando se abre.

 

Não compreende quem não segue seu mando

Ou quem não enfrenta antes que acabe

Mas se um verso ou digressão lhe cabe

O tempo expõe: amar se faz amando.

 

Sentimento avança como trenó

Abre e rasga o olhar mais paciente

E, somente ele, enlaça em nó.

 

Mas como em qualquer desordem latente

O amor só sente e se sente só

Se não quer se entregar quando se sente.

 

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CAUSA PERDIDA

(soneto)

Zé Rui Kleiner

 

O som d’uma leveza anda ao meu lado

Com meus papeis dos tempos de criança

Meu olhar ainda fixa a mesma andança

Sem rancor, sou mais um zé do pecado

 

A razão do meu riso não guardado

Aprimora meu passo de mudança

E, num passe, preservo a doce herança

Do sentimento simples, desgarrado

 

Em meu tempo, se juntam universos;

De outros tempos, se faz minha lembrança

A qual se reviu o que se refez

 

E, assim, só reproduzo todos versos

Só, observo que o mundo desavança

E que a delicadeza perdeu vez.

 

   

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FAZENDO O DIA ESPERAR

(soneto)

Zé Rui Kleiner

 

O que quis, fazendo o dia esperar,

Foi achar um leve orvalho de graça

Caindo em nós no banco d’uma praça

Tendo no peito a noite d’um luar.

 

Ao fechar nossos olhos a dor passa

E leva de vez a voz de chorar

Só, te arquiteto em terras além-mar

Pois mesmo perto, só, sou estilhaça.

 

Quis, morena, optar pelo apelo

Sabia da minha e da tua dor

Combinei com nosso tempo sem zelo.

 

E, quando se deu tempo à minha flor,

Se encaixaram em ondas dos teus cabelos

Todas as noites, de Lua e de cor.

 

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SONETO DOS OLHOS DE UMA MENINA

Zé Rui Kleiner

 

Te vejo através do olhar embaçado

Com a calma e dor de vida passageira

Ardendo em chama d’alma ventaneira

Me apego em ti, tornando-me ao teu lado.

 

Se afoito fui, fizeste arregalado

Um choro aflito de vida açoiteira

Qu’eu tentei reaver sem eira nem beira

Na noite em que abri meu peito fechado.

 

Torço pro dia em que as memórias partam

Que, ao lembrar, meus olhos nunca mais ardam

Apenas me venham perros abrolhos.

 

Tua vinda é grávida de quando cantam

Tu és minha e sou teu, pois, não me enganam,

Do teu corpo e alma sou só teus olhos.

 

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HELIOTROPISMO

(poema)

Zé Rui Kleiner

 

Te atormentas, sei

Da noite pro dia

Quando o leito pesa

E a razão hesita.

 

Aqui, perto ou longe,

Entrelaço as veias

Canibais sem rimas

Que buscam as tuas.

 

Meu corpo apetece

Arranca por cachos

Do que tem ou não tem.

 

O que jaz em mim

Se torna o amor

Que ressuscita em ti.

 

 

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SONETO DA ALMA ALÉM-FRONTEIRA

Zé Rui Kleiner

 

Vai, alma errante: assuma teu erro

De não te entregares ao meu espírito...

Se tivesses pensado em teu conflito

Terias zelado pelo meu zelo.

 

Tua voz derrete o coração de gelo;

Sem pesar e contentamento, grito

Na busca incessante d’um corpo aflito

Meu pouco te faz teu, pele com pêlo.

 

Te desenrolas, alma, de tua túnica!

Distância é nosso amor em primazia

Pois em mim, sempre serás tal qual única.

 

Vai, alma, assuma agora tua vigia

Teu teatro sempre será minha música

E esta sempre será tua poesia.

 

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SONETO DA IMPIEDADE

Zé Rui Kleiner

 

De tão grande o engano, fez-se oculta

A lua, escultora de quimeras

De vergonha não vejo a nossa era

Nem crua, desarmada ou prostituta.

 

Se me olho, só vejo tal cratera

Entalhada por uma infância culta

Onde só a mentira foi adulta:

O inferno virava a primavera.

 

Me lancei ao mar pela catapulta

Porém, ainda no ar da esfera,

Percebi meu erro sem consulta.

 

Quis no céu agarrar feito uma hera

E, no tapete da mãe d’água oculta,

Mergulhei na má-sorte qual megera.

 

 

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NOVE MESES

(soneto)

Zé Rui Kleiner

 

Amanhece mais um dia d’um mês

Dentre tantos que o luto inda venera

Dentre às frágeis paredes de tapera

Se desfaz um leito que não se fez.

 

Já de tarde a antiga dor se refez

Me vi envolvido na falsa quimera

Tal vestida em tocaia de pantera

Guardando teu coração regra-três.

 

Sinto um profundo pesar desta brida

Por ti escancarada uma ferida;

Nove vidas malvindas em tua mão.

 

Nove meses, novis fora... – Perdida,

A lágrima de choro - ou despedida -

Virou mágoa, saudade e solidão.

 

 

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FLOR DO CERRADO, CAMPINA DA FLOR

(soneto)

Zé Rui Kleiner

 

Flor do Cerrado, meu peito aflito

Te celebra com medo, noite e dia

Faz encanto que o pranto silencia:

Cartola com andar de Carlitos.

 

Flor do Cerrado, és meteorito

Ruído da chapada - nobre etnia

Teu riso moreno que não mais ria

Em mim; escrevi o não mais escrito.

 

Em teus cachos, meu choro se declina

Quase dizendo teu nome em vontade

Jamais irias minar minha sina.

 

Serenatas eu fiz pela cidade

Cantei na chuva de esquina a esquina

Pois descobri em ti, Flor, a saudade.

 

 

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TROVA DO ZÉ-NINGUÉM
Zé Rui Kleiner
 
Ah, se pra ti eu sou mais um
Que errou e acertou sem nem fé
Sim; mas, de lugar incomum,
Não serei o teu zé-mané.
 
Confesso que, da minha imagem,
Fiz do meu caminho um enredo;
Mas te olhei nos olhos com coragem
E só me olhaste com teu medo.
 
Quando, então, a noite chegava
E querias um ombro amigo
Era eu quem aconselhava
A tu não brigares contigo.
 
Sem contar todas as razões
Que te dei pra pensar na vida
Como a qual que, pros corações,
Melhor no plural e sentida.
 
Escolheste a vespa da intriga
Se falas de mim é com gosto
De tridente, sem cunho de briga
- Pois pra vida já perdeste o rosto.
 
Te escondes nas tuas mentiras
Sem coragem, mudas tua fala
Cavas tua cova; já te reviras
Me apontas pela tua própria bala.
 
Falar sem mostrar é só mito
Que nivela por baixo a história;
E se escrevo feio ou bonito
Não faço de conquista uma inglória.
 
É papo de olho de trincheira
Sem onde, como, quando e quem
Tu és maria-fuxiqueira
Ou não passas dum zé-ninguém.
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AUTO SERMÃO (poema)

 

Eu nunca quis conhecer a Torre Eiffel.

Nem nunca quis saber escrever direito o nome em francês.

Não quis nenhum deus nos meus momentos de perda, do meu irmão ou de amigo.

Jamais pedi algo ou deixei qualquer sentimento intocável tomar conta do meu caminho.

 

Sempre vi as minhas chances se perderem e

As poucas que me foram dadas sendo injustas, conseguidas pela força.

Enquanto a poesia vinha, o desassossego chegava, tomando parte da mesma.

Sempre na beira do precipício, as palavras vinham todas aflitas, verdadeiro redemoinho.

 

Dos versos regrados, cheios de música, me sobrou a culpa.

Hei de guardar só o que preciso para (sobre)viver e, assim, me refazer.

E, a não ser que a recompensa pela inanição da alma seja algo que me traga outra

Como eu unicamente peço, mesmo sem nunca nada ter pedido, eu desisto da minha própria alma.

 

 

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SONETO DO AMOR LEAL

Zé Rui Kleiner

 

Diga, morena minha, quem tu és

Cujo altar esculpi com minha súplica

Em sonho teu sorriso cheira música

De corpo e alma, me ponho aos teus pés.

 

Parte, morena, do longe ao revés

Que perto és bem maior que história bíblica

Mas arde sem ti, tal chibata e arnica,

No coração tranquilo: teu invés.

 

Ei-me, morena; te acordando fiz,

Compondo d’um começo a tua partida,

Teu soneto, o qual nem pediu, nem quis.

 

Que nossa rua seja sem saída!

E, sim, morena, seja por um tris

Nosso cupido, na sorte ou na vida.

 

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NOVO ANO NOVO

(Trova)
Zé Rui Kleiner

 

Passando horas a fio

Divaguei pela cidade

Sempre na mesma vontade

De, em prece, um ano gentil.

 

Eu quis colocar cadeiras

Pra aqueles que ainda vêm

Quanto mais espero alguém

O tempo vem em poeira.

 

Saí em busca de calma;

Como diz o Saramago

Não tem deus sem o diabo:

As saudades são minh’alma.

 

Muitas serestas me trazem

O que fiz e o que fazia

Mais que qualquer companhia

Elas ainda hoje me fazem.

 

Meu ouvido é vapor d’água

Se transforma em resistência

Recria toda a ciência

Desaparecendo a mágoa.

 

Neste ano, eu sei, porém

Vou criando, devagar

E só minha gente ajudar

Mesmo sem achar ninguém.

 

Meu coração no passado

Aos ausentes se emparelha

Ano novo, vida velha,

Quem se foi está ao lado.

 

Teimo em não fazer prece

Apenas sambas décor

Buscar tudo de melhor

Que um ano novo merece.

 

 

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OS QUATRO TEMPOS
(Quatro sonetos)
Zé Rui Kleiner
 
Para Vinicius
  
I – PASSADO
 
Houve um tempo qual se ouviu sentimento
Que a vantagem se errava nos trajetos
Cuja maior chantagem era um gesto
De cantar na janela sob o vento.
 
Nossa dor se media nos infestos
Bailes regados aos doces momentos
Os quais, ciúmes dos atrevimentos,
Embarcavam em fúteis manifestos.
 
Alcancei-me, porém, dessa janela
Em que passei por mim distorcido
Como se eu fosse apenas uma tela
 
Passados tempos, dias encolhidos
Percebi meu passado sentinela
Da janela vi um ser desvanecido.
 
 
II – PRESENTE
 
Tenho e não tenho o curso de uma história
Brigo até com o demônio; pela ida
Boêmia a qual eu levo toda vida
Me esqueço da ferida compulsória.
 
Sigo tal curso, ébrio da oratória
Envolvo-me em sequiosa despedida
- Presente de um deus d’alma corrompida
Trancado nos confins d’uma memória.
 
Vinte e poucas promessas todo ano
Outras trinta sem nem eira nem beira
Quarenta, novisfora, por engano
 
Tudo se faz e se fez por besteira
De um ser que ainda se faz pleno inumano
Da alma só: soturna e vil geleira.
 
 
III – FUTURO
 
Se me for alcançável, lhe farei
Com que cresça a beleza da semente;
Se me restar promessa, cumprirei
Mas só se a terra for mesmo insistente.
 
Que se restem madeiras, não de lei
Pois o homem provou que não se sente,
Quando d’uma palavra do seu rei,
Qualquer culpa por um risco iminente.
 
Eu peço agora, pelo tempo adiante,
Os anéis que se envolvem n’outro mundo,
E o contratempo, a sós, não mais errante.
 
Não se espera quando o bem vai no fundo
Ou se a história floresce mesmo arfante
Que o longo tempo é como num segundo.
 
 
IV – ATEMPO
 
De viés, me pego olhando na porta;
O predicado do tempo se some
Deixando de saber o que consome
A revivida natureza-morta.
 
Um sujeito oculto, d’alma bem torta,
Que ama, que seduz, que mata a fome
Com alguns grãos de nome e sobrenome
Ensinou: mostrou que o tempo é quem corta.
 
E quanto mais me afasto, mais me sigo
Depois de tanto fugir, o regresso;
A tal medida é o melhor desabrigo
 
Quando me perguntam o que lhe peço
Apenas que saiba: o novo é antigo
E que até o velho tempo é réu confesso.
 
 
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VILA CORDEIRO
(soneto)
Zé Rui Kleiner
  
Cidade, fazenda do meu sorriso
De perdas, ibicabas e cascalhos
Vizinha tênue dos meus rios mais claros
Espetáculo raso e movediço.
 
Guardadora de histórias e recantos
Se escoando tal qual vila pequena
Uma mão acaricia a minha morena
Outra dada pela praça, sem pranto.
 
Se algum dia eu quiser fazer seresta
Trago o violão, o luar e o que nos resta
Para, então, minha alma se envaidecer.
 
Se a cidade que eu vivo fosse esta
Nem assim minha saudade se empresta
A morena jamais ia esquecer.
 
 
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SONETO À MEIA DISTÂNCIA
(Zé Rui Kleiner)
 
Mesmo que o sentimento, em vão, tardio
Se descubra em ti por delicadeza
Vou cumprindo o papel de realeza
Abrindo meu tapete a ouro-e-fio.
 
Chegaste de surpresa ao meio frio
Teu olhar me revela a natureza
Doce e singela, como framboesa;
Tranquila correnteza do meu rio.
 
Talvez, quando passares do meu lado
Sentirás todo pulso d’um ardor
Da minha paulicéia desvairada.
 
Serei, para ti, todo meu cuidado
Reservado de pétalas de flor
E temos, hoje e sempre, a caminhada.
 
 
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SONETO BOBO
(Zé Rui Kleiner)
 
Quisera eu no tempo ter voltado
Ter dito mentiras de amor sinceras
E seguido o rumo da minha espera
Pra sua casca ter mudado de estado.
 
Com esse meu lado meio megera
Que lhe faz fugir do seu próprio achado
Meu samba se parte e, o peito estufado,
Guarda aquilo que só o seu jazz venera.
 
Eu nunca sonhei com tanta bobagem
Não fosse a vontade em me ouvir tanto
Num soneto bobo em modo litígio
 
Empurrei a doce estrada d’um bem
Preferiu a amarga quebra d’um encanto
Pro seu frígio nome rimar vestígio.
 
 
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SONETO DA FINA FLOR
(Soneto diálogo)
Zé Rui Kleiner
  
-Meu nome: se chama pela viola.
Sou Moreno, da negra alma de dor
Querendo, pr’uma dança e pro torpor,
Teu incendeio olhar, ginga de Angola!
 
-Sou ela, aquela que o medo s’embola
Cuja alma transpadece qualquer cor
Sou a Morena e, sim, de fina flor
Que te chacoalho tal qual castanhola.
 
Mas que trazes, Moreno, pra minha dança?
Qual lição dessas lágrimas de sal
Diz pr’eu juntar com que só me balança?
 
- Se te vejo, me dói como punhal
Desde quando da corda fiz aliança
Pr’uma história virar angelical.
 
 
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SONETO DA VOLTA
(Zé Rui Kleiner)
 
Quando do dia da partida tua
D’uma voz torta se fez rouquidão
E, n’outro gauche, pesou-se tal grua
Empenada por vasta solidão
 
Tomou conta de mim a meia-lua,
O céu, histórias... o mero serão
Na varanda, a saudade quase crua
Da rua a qual viveu um coração
 
Mas hoje, por tua volta, me persigo
Um maduro sentimento percorre
A alegria leal talhada em prata
 
Me venhas como um novo amor antigo
Que a saudade irreal apenas morre
E a outra, muito ou pouco a pouco, mata.
 
 
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SONETO INJUSTO
(Zé Rui Kleiner)
 
Eu que não sou santo vi a má sorte
Adentrando em minha casa qual ente
Perpetuado em boca de serpente,
Como gente, o punhal de quase morte.
 
Por trás de mim, cavou-me um sagaz corte
Sem justa causa, um olhar de tenente
Me julgou sem nem pensar que na frente
A lei do retorno fica mais forte.
 
Apenas desfaça o que você fez
Pois uma vez, quando esteve comigo,
Dessa boca megera fui amigo.
 
Não tenho culpa da sua escassez
Nem pelo abrigo que dei vou cobrar
Mas quero de volta minha luz do olhar.
 
 
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SONETO PARA A VOLTA
(Zé Rui Kleiner)
 
Sintetizo na forma d’um soneto
A vontade maior de minha escrita
Sua volta guardada que me fita
Um cuidado maior, o qual prometo.
 
A saudade que eu tenho é amuleto
Que eu tenho desde o dia da visita
E quando, por você, meu peito agita
Tal pepita, na pele, não derreto.
 
Se voltei encantado com seu brilho
Sou réu confesso clamando inocência
Pois o amor jamais é só coerência.
 
No castelo meus olhos são ladrilho;
Da muralha, que é minha persistência,
Sê princesa para a cura da ausência.
 
 
 
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SONETO TERAPÊUTA
Zé Rui Kleiner
 
Qual maior abertura, tal qual faz
Meio ano que se vai, sem se fez
Arredio repouso a minha vez
Com ternura vazia ineficaz
 
Qual vazio se faz por comentário
Que se estende por falhas bocas nuas
As quais se prostituem pelas ruas
Pelas quais segue aflito um solitário
 
O medo dos dizeres de uma alma
Não preenche jamais um coração:
Descaminha a trilha do amanhã
 
Conheço alguns segredos como a palma
Peço apenas que volte o meu bordão
E segue assim: o tempo é o meu divã

 

 

 

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LETRAS
 
 
SEU MOÇO, CUIDADO
(Samba de Zé Rui e Saulo Ligo)
 
Seu moço, por favor, me escute agora
Quem vê de fora enxerga um descuidado
Que quer no mundo todo a sua obra
De sobra, mal conhece o seu passado
 
Seu moço, por favor, tome cuidado
Não cave o fundo do poço pro lado
 
Semente caída do pé não cai distante
Mais cedo ou mais tarde desaba o seu reinado
Sobra discurso mas falta, nesse caso, o importante
Pra ir adiante, não se julga o cara errado
 
Mas, seu moço, se quer mesmo um bom conselho deste lado
Disfarça e aceita que o tempo deixou de ser moço
Esboço de promessa não interessa ou se joga em sal-grosso
De homem não sobrou nem mais o osso.
 
 
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OLHOS MORENOS
Yuri Reis e Zé Rui Kleiner
(Choro canção)
 
Olhos morenos, de lua e sereno,
São gotas de orvalho no céu
Chega depressa, sem dó de sofrer
Pois a seresta sem luar é como sem você
Olhos morenos, pinturas de aceno,
São velas talhadas do mel
Numa moldura dourada
E um choro num véu.
 
Olhos pequenos, capricho obsceno,
Canto na rua seus lábios de cor
Quando, de tarde, um silêncio que alarde
D'uma ilusão de ser só.
 
Olhos morenos, letrais setestrelos,
Promessa sublime de Deus
Nos meus anseios, proezas reais
A natureza fez a dor do amor querendo mais
Olhos morenos do verde incendeio
Me tragam suspiros dos seus
São seus suspiros campestres os mestres dos meus.
 
Olhos morenos, caboclos serenos,
Olhos que guiam o meu girassol
Mesmo distante o encanto é tão grande
Que a solidão vira pó.
 
Olhos serenos, brasões seresteiros,
Falem de mim o que der pra falar
Pois, nesses olhos morenos da flor,
Se eu for é pra não voltar.
 
 
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PAIXÃO DE FESTIM
Zé Rui
(Samba canção)
 
No dia em que te vi por tua imagem
Tão logo despistei a minha coragem
Juravas eterno amor mas, feito de dor,
Foi mais um que morreu
Menti para dentro de mim que este amor não nasceu
E quando eu me despertei da tua ilusão
Fiz como manda o roteiro de minha viagem
Neguei o que aconteceu e foi bem melhor assim
Pois soube que o apoio que dei foi paixão de festim
 
Mas nem toda paixão é um desacato
Se parto com outros olhares, me atacas de vez
E hoje o teu ofício é fuxico barato
Só falas por trás e te escondes na tal frigidez
Fizeste com que a vida desse as costas para mim
O mundo gira e a lei do retorno será o teu fim
Mentiste por abrigo como boca de traíra
Mentira não se responde com mentira.
 
 
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MUITO SAL, POUCO BEM
Saulo Ligo e Zé Rui Kleiner
(Samba canção)
 
Tem tanto que não sabe como quer
e quer mas nunca sabe se já tem
Se vem, vem por demais e não consegue entender
não sabe encontrar seu próprio ser.
Tem muito sal ou pouco bem
e quem me quer quando me quer já não me tem
não sente que lhe cabe perceber
que a vida não nos dá aquilo que não nos convém
não dá pra ter certeza de ninguém
 
Saiba que o medo maior
Só é feroz se não se sente
Sei o segredo decor
De quem se passa inocente
E de repente cai a perceber
Que tanto junta e nada tem
Mas saiba: quem quer tanto, fica sem.
 
 
...
 
 
  
SAUDADE DA VILA
Zé Rui Kleiner
(samba)

Ah, mas que saudade
Eu sinto falta da minha Vila querida
Vila Rezende
És preferida por Deus, pelo mundo, pelos santos
Por toda cidade.
 
Parto sem mágoas no coração
Pois sei que a dor nos faz chorar
Nunca é tempo demais pra lamentação
Onde estarei, tu estarás, então.
 
 
...
 
 
FORMOSA CIDADE
Zé Rui Kleiner
(samba-canção)
 
Sempre que passo naquela porta
Fujo à alegria vazia
E uma paixão me recorta
Saudade deveras torta
Meu recosto de montanha
Passarela, madeira viva
Solidão, tristeza morta
 
Na espera da morena,
Vagando a seresta
Penando sem pena
Lagoa suspensa, jardins de novena
É um chão que se ergue por inspiração.
 
Formosa cidade, se faz de pequena
Sabemos no fundo que a tal morena
Não cabe nos braços de um samba canção
Meu peito se cala
Garganta serena
Declama mil versos em tom de poema
É um povo que habita na própria emoção.
 
...
 
 
DEVOLVE
Zé Rui Kleiner
(samba)
 
Devolve o que roubou do meu coração
Sabe então que eu não mais te espero
Promessas de mentira eu não sei fazer
Mas leva meu amor com você.
 
A vida segue sempre a mesma instância
Sobrevive amor a distância
Mas de mentira, eu não sei
Confesso, sei de minha vaidade
Tenho um amor de verdade
Juro que eu já te esqueci
Vai procurar sua vida
Um dia a arrogância é ferida
Na ilusão que é você.
 
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